quinta-feira, 29 de julho de 2010




É estranho como me sinto solitária a cada vez que viajo de avião. Não é uma solidão avassaladora, que beira a dor. É uma solidão calma e paciente. Mas em algum lugar da sua amplitude e completude, há uma ponta de incômodo.
Não sei se esta solidão vem do fato de que todas as minhas viagens de avião, fiz sozinha. Mas, sinceramente, sinto que vem do ‘viver’. Da pressa, da ânsia, do homem!
Sobrevoando passamos as casas. Com elas vem as montanhas. E com as montanhas os rios. E com os rios toda a natureza...e o silêncio!
O homem criou tudo para que pudesse satisfazer suas necessidades de conforto, mas ainda mais para satisfazer sua incessante insatisfação. Talvez uma tentativa inútil de que suas belezas possam ser comparadas a obras Divinas.
E quanto mais se constrói, menor seremos. Construções e máquinas grandiosas nos diminuem. No final de cada um destes sucessos, seremos um pequenino ser humano olhando lá para cima e admirando. Mas depois...e agora,qual é a próxima?



Grandioso deve sentir-se o professor que ensina à criancinha uma palavra nova. Ou aquele que ofereceu ao senhor, já velhinho e franzino, ajuda para atravessar a rua. Grandiosa, sinto-me quando pego no colo um cachorrinho ainda filhote e ele lambe minhas mãos agradecendo o carinho.
E ainda assim, incrivelmente, toda a beleza inacessível a criação humana, cabe na pequena janelinha do avião. Como quem presta-nos um favor. De poder admirar, de poder respirar, de poder estar vivo.
Antes de decolar, enquanto a aeronave ganha velocidade e vejo td passar bem rápido, sinto a impregnação e a certeza da solidão humana. Criamos máquinas, geramos filhos. Mas muitos de nós não aprenderam a cuidar das máquinas que criamos (afinal,td torna-se descartável!) nem amar os filhos que geramos. E no intervalo entre uma construçao e outra, para o progresso e satisfação, estamos aqui, na janelinha, solitários. Com um ar de redenção e de solidão.
Mesmo assim, quando o avião alcança velocidade máxima e começa a se inclinar, não consigo deixar de sorrir: estou voando!

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